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| o grito |
No fundo do abismo
Existe um arco-íris
Sem cor.
Lá, transitam pássaros sem asas.
Voam a pé
Na imaginação do nada.
Escuro, sombrio, gelado.
Ouço gritos entoados
No escuro.
Não vejo nada, além da dor.
Pode ser que exista amor em algum lado,
Não aqui.
Onde a brisa é vento, furacão.
Há lágrimas secas, que não descem, petrificam no chão.
Lá fora tudo é cor. Não há espaço para o cinza.
Mãos na cabeça, a segurar o desespero da incerteza de não
saber quem sou.
Ninguém habita esse lugar. Não há vida, água, sol ou luz.
É possível ver pela janela, não há janelas, um raio de dor.
Todos desconhecem o que se passa por aqui.
O escuro dá medo, mas conforta. É conhecido.
Estar nesse lugar é casa. Morada de vários nadas. Muitas
temporadas.
Não tem permissão para entrar aquele que nunca esteve por
aqui.
Só entende a mobília destroçada, a alma angustiada.
Existe amor lá fora, mas, aqui, não há existência, sobrevivência.
No umbral das almas perdidas, há mais sinceridade do que
dor.
Na festa dos sorrisos esbranquiçados, falsidade, não há
verdade.
Só entende quem sofre. Favor não forçar a entrada.
Respeitar a dor é acolher o sofredor.
Ana Paixão, voz emprestada a todos aqueles que sofrem.

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