-É o que dotô? É vírus?
-O que o senhor tá sentindo?
-Oia dotô, é um negócio esquisito, meio que sobe e desce e deixa a gente com tontura.
-Dói o que?
-Dói as tripa.
-Explica melhor.
-É assim, se tô longe, da sudade. Se to perto, dá calor. Se fico muito tempo sem vê, dói bem lá nu fundin. Sabe?
-E acontece isso de quando em quando?
-Oia, sempre que tô longe de meu cheirin. Se tô perto, como falei pro dotô, dá calor e falta o juízo. É grave dotô?
-Deixa eu ver se entendi: tá longe dói as tripa. Tá perto fica sem razão, é isso?
-É, pois!
-Então já sei o que é.
-Pois fale dotô!
-É aquele desavergonhado que dá em todo mundo de quando em vez. O danado do amor.
-É amo dotô ?Eita! Então lascou! Preferia se sesse vírus, que é mais fácil de curar. Tem remédio ai seu dotô pra essa disgrama?
-Remédio tem não, tem que aguentar até passar.
- E passa é como?
-Se soubesse não estaria desorientado. Dói um bocado!
-E dotô sofre desse tal de amo?
-Não imagina como.
-Pensei que dotô estudado não pegava isso não. Gente estudada sabe das coisas.
-Isso não se aprende nos livros, nem na escola. É a vida que ensina e a decepção que degola.
-É, pois! Por isso que eu falo dotô: melhor se sesse vírus...
-Mas é amor!
-Pronto! Agora deu foi! Faze o que? Esperar passar.
-É o jeito. Pior, que às vezes custa para isso acontecer.
-Eita lasqueira! É brincadeira?
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Ana Paixão, melhor se sesse vírus. (Março/2007)
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